sábado, 1 de dezembro de 2012


Amor,
sentimento que está sempre ultrapassando as bordas do copo, o qual mesmo sem as lascas desenhadas dos lábios, mantém os decalques antigos, os corpos molhados, salgados, misturados a uma pitada de doce na saliva.

   -  Ele: Já não tenho borda, teu sentimento me invade como ondas e alaga as areias do meu corpo, que te revelam pérolas raras semeadas pelo tempo.

   -  Ela: Neste naufrágio não resiste nenhuma ilha. Foram todas inundadas a mil metros abaixo de nós. Somos foz.

Fernanda Curcio & Leonardo Macedo.
Arte: Marc  Chagall.



quinta-feira, 1 de novembro de 2012



     Ao longe, o crepúsculo bordeja, puxado por Deus para que o mundo não intercepte, atrofiado pela maldição degradê do dia. Inicia intenso, ladino; depois infecta-se no rodapé de suas quadrúpedes crias. Bebê imaculado sugando águas pútridas, disfarçando o antro de toda a sanha; arte de engendrar a hipocrisia. 
     Ah! Inocente sol, pobre dia... quase adoecem para salvar a continuidade pernóstica- digna de pena- do espaço fornicado, recebendo como agradecimento, o relinchar da humanidade vazia. Logo, o dia precisa descansar, alimentar-se da ambrosia purificadora, e sobretudo, benzer-se da força de Ares para que a crosta metálica entorpeça ao ouvir o mantra esbraseado de seu nascente nirvânico. 
     Mas como serenar sóbrio sabendo que os Sátiros devastariam com o enxofre de seus chifres, o que Deus semeou na fornalha do coração? Conseguiria escutar o riso do deus Pan, satisfeito por ter extraviado os filhos do inimigo. Já prevendo tal iminência, o bom criador ergue no nascimento da noite, a sobrevivência do doce dia. Do contrário, os dias explodiriam, tamanha corpulência sulfúrica expirada por narinas apocalípticas. 
     A magia da noite é imitada pelo homem, já que seus olhos são dois cacos de vidro. Laminados, eles podem simular a candura através do silêncio. De suas ruminantes vozes frias.
     O dia protegido pelo escudo prateado vigia o sono dos mortais de soslaio, admirando a quietude tão pura de seus rostos cálidos. Nem parecem monstros que rivalizam com a própria espécie, a fim de não mostrarem egos arranhados. 
    Quando eles dormem, Deus até pensa que são altruístas genuínos, em lugar de Sátiros- homem de dois gumes- com espíritos invadidos. Realmente, neste momento não são, pois o noturno rasga o véu das palavras, adentrando à essência do divino. Errante pelo bosque, Pan experimenta o mesmo veneno cravado no pânico de suas presas fáceis, sem a companhia dos súditos, não mais hipnotizados pela grandeza dos descaminhos. 
    Por agora eles são anjos. Pela manhã fecham asas, nascem chifres. Surgem as mênades, a engatilhar a secreção de seus rifles. 
     O que a noite nos reserva? O milagre da luz emergindo na alma de um candeeiro sombrio.



Fernanda Curcio, In: O que a noite nos reserva?
René Magritte: O retorno da chama.



Contribuição para a Corrente Literária



segunda-feira, 8 de outubro de 2012



     Em meio ao cancro ela recolhe mansuetudes e canoniza deuses pérfidos na tentativa de soterrar-lhes a maldade na roldana do tempo. Quando existia a perfeição antes do nascimento forjado de ilusão. A rotação carbonizou a transparência; e o jejum, centelha santificada de essência, foi roubado pelo léxico do abandono. Da fome. Mesmo assim ela transveste-se de esperança e filtra no seu profundo o álibi amordaçado pela descrença armada. Por isso, ela mantém os seus deuses mortos, para que eles não consigam aprender a arte retórica de remendar os rasgos da alma. Os deuses não são. E assim, acabam sendo. Enquanto ela tem que ser mesmo não contendo.



Texto: Fernanda Curcio.
Arte: Leonardo Macedo.

domingo, 2 de setembro de 2012



     Cerro os olhos em estado de prece, desvelando as cavidades fustigadas do meu coração recitado nos breviários delirantes, cúmplices regalados por suspiros libertários, desjaulados da superfície borbulhante e inchada no portal da segunda pele, terreno baldio dos inquilinos desconhecidos e camuflados no disfarce ilusionário de ser gente.
    Cientifico a leveza de poder voar, sem o peso ancorado nos mares profanos, descosturando as asas siamesas enredadas aos baús enterrados tantas vezes, ciclicamente decalcados no engenho asno e duvidoso da memória enfeitiçada. Mas eis que descubro a física, bruxa celta guardiã dos segredos perdidos, ancestral de si e também da esquecida, da vencida massa cinza manchada nas rezas negras, desmascarada no estouro radioativo dos prantos feridos tubulados antes, no ocultismo bagageiro das falácias ritualizadas no seio. 
     Selo o pacto com a deusa metafísica, além da órbita do meu zoom modernizado, e gravito contornada pelo nada galardoado à serva desaparecida.Em troca oferto com gratidão o que restou da minha energia, sendo na poeira estelar do mundo uma vida mais que viva, defuntada apenas nos míseros pensamentos da constância. Eu só sou quando deixei de ser.




Texto: Fernanda Curcio.
Arte: René Magritte

sábado, 11 de agosto de 2012


Copos torpemente se partiram
sortidos no chão abissal.

Varreram-se com esmero os co(r)pos
da frente dos olhos mortos.

Enterraram-se os cacos desejosos da sede
que a respiração mortiça não poderia oferecer.

A indústria falsificou o arco-íris
e pôs a réplica na superfície oca do rótulo.

Um aglomerado de ossos: O nascimento do homem.
O velório iminente do verso.

- Um brinde ao verbo!!

Poema: Fernanda Curcio.
Arte: Frida Kahlo, Meu Nascimento, 1932.

quinta-feira, 19 de julho de 2012


Órgãos ornamentais,
genitores involuntários.

- Quando a máquina reprodutora será compatível os com meus sais?

Poema: Fernanda Curcio
Arte: Gustav Klimt. Esperança, 1903.

quarta-feira, 23 de maio de 2012


Gosto de pensar
que as pessoas que morreram
completam outro lugar.



Poema: Leonardo Macedo
Arte: Maxfield Parrish

sábado, 5 de maio de 2012

     

     Inicio as metáforas transcorrendo as palavras numa caravela sufocada. De mar? Não. Pela saudade do mar que transporta e inunda de sentimentos. Sim, eu começo escrevendo aquilo que não sinto, mas o pirata de ouro e prata, Hopeixe feito de sal, ameaçou-me de expulsão da embarcação empoleirada de meus submundos, caso eu continuasse a afastar a água que lava e leva a outros continentes. Fui obrigada a ceder e receber a lava de sorrisos azuis interpretados por torrados olhos vermelhos. Temi não conseguir tal atuação, mas do mesmo modo que o mar assusta-nos com seus pesadelos repentinos, minha alma vendada foi encontrada pelo surto desgravitacional de uma cachoeira. Sem sentir, terminei-me sentindo.

Texto: Fernanda Curcio
Arte: René Magritte, a vitória.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

     

     O inimigo espuma pela boca, gargalhando da fragilidade delicada do Amor deslumbrado. Olho impaciente para a criança desatenta, tentando avisá-la do perigo semeado pela discórdia da minha alma queimada no incêndio florestal. A criatura regada por mim através dos lençóis encharcados está prestes a cravar os caninos fermentados, iniciando um massacre de vermelho derretido, fugaz na perspicácia do açougueiro, que sagaz, bebe até a última gota da carnificina amolecida numa única mordida. Só não se esqueça, aborto nascido, de saciar-se depois comigo, começando pelos olhos que te fecundaram, e pelo ventre infértil que você habitou, pois que sem alma e sem amor, minha matéria é apenas enfeite perambulando robotizada nas calçadas alheias, esmolando um pouco de vida, ou quem sabe, um sopro consolado de morte.

Texto: Fernanda Curcio
Arte: Max Klinger

sexta-feira, 16 de março de 2012

    
    - Porque o teu coração sustenta as coisas, arranquei-o e pus em mim. Estou de pé com um sorriso no rosto e um coração nas mãos. Toma o meu, que essa frágil geometria só encaixa, se nos contornos do teu ser inanimado - herói sonhado das epopeias de criança - for enraizado no poço fundo dos meus olhos, que antes não alcançava nenhum cordão esfiapado de esperança.  Quando você chegou, do seu mundo de pés descalços, não houve paradigma a impedir o anjo que me buscou na gravidade invernal da alma. Você me ensinou que quando se tem asas, um arranha-céu visto do alto é apenas um pequeno átomo do universo brincando de ser grande. Sou grande em ti. És bússola em mim. 
   - Pego-o com as duas mãos embaladas e com cuidado levo ao peito que o concebe, molde contornado e untado na minha essência, em sua permanência. Selo a tua estadia fixa no meu ser, habitante e jardineira da minha alma, que das trepadeiras retorcidas fará nascer girassóis estrelados pelo teu azul de menina-ilha, onde me perco no inverso de mim, no verso dos teus toques orquestrados pela natureza. E eu que tanto treinei o meu sorriso para engatar um impulso mais longínquo, agora sei que estava com você, me esperando além do vidro blindado de cores ossudas. Sou anjo em ti. És sorriso em mim.
   - Olho para as minhas mãos afogueadas na sua intensa labareda líquida, e como mágica, desenho na face um sorriso recriado, reconstruído pela pureza milagrosa do seu coração. E no molde da tua essência o coração está seguro e sustento, pois que a leveza das tuas mãos, teu sorriso não o recriei, havia apenas esquecido a coreografia do nascer de um sorriso, que num ritmo descompassado o levei a dançar. Que a pureza permaneça em nós e em nosso coração alado.

Texto: Fernanda Curcio e Leonardo Macedo.
Arte: Henry Matisse, Coração.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012



 - Minhas asas cantam para você neste momento, num ritmo tão denso e longo, que sua cor púrpura se desbota na forma transparente da água. Tenho asas que só você enxerga! Meu bem. Asas que você pintou em meio ao noturno, pois, teve a coragem de buscar meu beijo num abismo onde não existem nem asas nem sóis. Quero-te muito, e voando levo o meu beijo com o gosto dos campos por onde pousei. - Sussurrou a borboleta arfante, deixando nos lábios entreabertos do artista de pinceis mágicos, o sopro do amor que existia antes de existir, antes mesmo do mundo e do vento, condutor das asas da borboleta, que como um marinheiro habitante das águas profundas, afunda desmemoriado, nos braços do barco à vela, que vela pelo sono do seu amor.

 - Meu bem, as asas que vejo estavam disfarçadas em forma de sorrisos.  Eu sei que 'a luz aflora onde nenhum sol brilha' e por isso habito os lugares mais recônditos.  Beijo-te com querer e dos campos por onde pousaste sinto-os carregados de ternura. - Disse o príncipe das cores, criador de vidas imaginadas pelo seu olhar sonhador, deus bondoso que apagou da tela barroca o cárcere enferrujado da menina feia que nem ao menos sabia andar. Em vez de ensinar-lhe a andar, deu-lhe sonhos vivos, que as grades do casulo ranzinza nunca irão poder roubar.

Texto: Fernanda Curcio e Leonardo Macedo.
Arte: Georges Braque. Dois pássaros no azul.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fiz da tua entrega 
o meu templo, e nele 
habito dia a noite.

Não há vestes, pois, 
 que nada se esconde.
Tudo é claro, exato.

O furor da paixão rasga 
o tecido em pleno dominio
onde mora o frêmito.



Animal vivo, faminto,
Palpitação pulsante. 
descontrolado o corpo alado.

E quando enrolas em mim
Torno-me azul emaranhado
em corpo aninhado.

Poema: Leonardo Macedo
Arte: Antonio Canova. Eros e Psique.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012


Reconstruí o meu corpo desparafusado e surrupiei as asas dum cisne petrificado. 
Será que o invento ressuscitador sobreviverá sem o meu coração liquidificado? 
Deveria ter transplantado também o coração da ave ressequida, agora disputado pelas sombras rastejantes. Desejo pelo menos, numa réstia de esperança, uma nuvem acinzentada prestes a explodir, com muitas lágrimas para eu poder roubar.

Texto: Fernanda Curcio
Arte: Thayer Abbott. Angel,  1890.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012


Cansada de ser vértice enferrujada de joelhos dessossados, hipnotizo a guilhotina fatiadora, mãe das ânsias horizontais, a retumbar com a lâmina lacrada a face desencantada que se desiludiu de mim. 

Texto: Fernanda Curcio
Arte: Edward Hopper. 11 am, 1926.