Em meio ao cancro ela recolhe mansuetudes e canoniza deuses pérfidos na tentativa de soterrar-lhes a maldade na roldana do tempo. Quando existia a perfeição antes do nascimento forjado de ilusão. A rotação carbonizou a transparência; e o jejum, centelha santificada de essência, foi roubado pelo léxico do abandono. Da fome. Mesmo assim ela transveste-se de esperança e filtra no seu profundo o álibi amordaçado pela descrença armada. Por isso, ela mantém os seus deuses mortos, para que eles não consigam aprender a arte retórica de remendar os rasgos da alma. Os deuses não são. E assim, acabam sendo. Enquanto ela tem que ser mesmo não contendo.
Texto: Fernanda Curcio.
Arte: Leonardo Macedo.
