quarta-feira, 8 de abril de 2015



        Nunca estamos satisfeitos com quem somos. A garota hermética de antes daria tudo para ter a vida de agora e construir sua própria história. E ela nem achava que fosse possível resistir durante a solidão dos dias inóspitos. Agora ela tem amigos os quais suas mãos podem alcançar, mas só o que ela deseja é ser a garota, aquela garota do menino de cor azul. Carregava seu amor com as mãos em concha junto ao peito, como se fosse um bebê que acabara de nascer, sagrado e não profanado pelas calçadas anônimas. Olha para trás e tenta se reconhecer, preservar o que restou da menina do menino, aquela que busca as cores indeléveis e os olhares que permanecem, avessos às efemeridades dos outros a fingirem uma existência que talvez nunca tenha existido. Eu a buscarei das entranhas de mim, lembrando-a em cada esquina obscura que a encontrar, pois seu coração é feito de lar, não de rostos sem face que deixam sua alma muda. Por ter esquecido que não, não é, ainda não é surda.

 
Texto: Fernanda Curcio
Imagem: Maya Kulenovic