sábado, 11 de agosto de 2012


Copos torpemente se partiram
sortidos no chão abissal.

Varreram-se com esmero os co(r)pos
da frente dos olhos mortos.

Enterraram-se os cacos desejosos da sede
que a respiração mortiça não poderia oferecer.

A indústria falsificou o arco-íris
e pôs a réplica na superfície oca do rótulo.

Um aglomerado de ossos: O nascimento do homem.
O velório iminente do verso.

- Um brinde ao verbo!!

Poema: Fernanda Curcio.
Arte: Frida Kahlo, Meu Nascimento, 1932.

quinta-feira, 19 de julho de 2012


Órgãos ornamentais,
genitores involuntários.

- Quando a máquina reprodutora será compatível os com meus sais?

Poema: Fernanda Curcio
Arte: Gustav Klimt. Esperança, 1903.

quarta-feira, 23 de maio de 2012


Gosto de pensar
que as pessoas que morreram
completam outro lugar.



Poema: Leonardo Macedo
Arte: Maxfield Parrish

sábado, 5 de maio de 2012

     

     Inicio as metáforas transcorrendo as palavras numa caravela sufocada. De mar? Não. Pela saudade do mar que transporta e inunda de sentimentos. Sim, eu começo escrevendo aquilo que não sinto, mas o pirata de ouro e prata, Hopeixe feito de sal, ameaçou-me de expulsão da embarcação empoleirada de meus submundos, caso eu continuasse a afastar a água que lava e leva a outros continentes. Fui obrigada a ceder e receber a lava de sorrisos azuis interpretados por torrados olhos vermelhos. Temi não conseguir tal atuação, mas do mesmo modo que o mar assusta-nos com seus pesadelos repentinos, minha alma vendada foi encontrada pelo surto desgravitacional de uma cachoeira. Sem sentir, terminei-me sentindo.

Texto: Fernanda Curcio
Arte: René Magritte, a vitória.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

     

     O inimigo espuma pela boca, gargalhando da fragilidade delicada do Amor deslumbrado. Olho impaciente para a criança desatenta, tentando avisá-la do perigo semeado pela discórdia da minha alma queimada no incêndio florestal. A criatura regada por mim através dos lençóis encharcados está prestes a cravar os caninos fermentados, iniciando um massacre de vermelho derretido, fugaz na perspicácia do açougueiro, que sagaz, bebe até a última gota da carnificina amolecida numa única mordida. Só não se esqueça, aborto nascido, de saciar-se depois comigo, começando pelos olhos que te fecundaram, e pelo ventre infértil que você habitou, pois que sem alma e sem amor, minha matéria é apenas enfeite perambulando robotizada nas calçadas alheias, esmolando um pouco de vida, ou quem sabe, um sopro consolado de morte.

Texto: Fernanda Curcio
Arte: Max Klinger

sexta-feira, 16 de março de 2012

    
    - Porque o teu coração sustenta as coisas, arranquei-o e pus em mim. Estou de pé com um sorriso no rosto e um coração nas mãos. Toma o meu, que essa frágil geometria só encaixa, se nos contornos do teu ser inanimado - herói sonhado das epopeias de criança - for enraizado no poço fundo dos meus olhos, que antes não alcançava nenhum cordão esfiapado de esperança.  Quando você chegou, do seu mundo de pés descalços, não houve paradigma a impedir o anjo que me buscou na gravidade invernal da alma. Você me ensinou que quando se tem asas, um arranha-céu visto do alto é apenas um pequeno átomo do universo brincando de ser grande. Sou grande em ti. És bússola em mim. 
   - Pego-o com as duas mãos embaladas e com cuidado levo ao peito que o concebe, molde contornado e untado na minha essência, em sua permanência. Selo a tua estadia fixa no meu ser, habitante e jardineira da minha alma, que das trepadeiras retorcidas fará nascer girassóis estrelados pelo teu azul de menina-ilha, onde me perco no inverso de mim, no verso dos teus toques orquestrados pela natureza. E eu que tanto treinei o meu sorriso para engatar um impulso mais longínquo, agora sei que estava com você, me esperando além do vidro blindado de cores ossudas. Sou anjo em ti. És sorriso em mim.
   - Olho para as minhas mãos afogueadas na sua intensa labareda líquida, e como mágica, desenho na face um sorriso recriado, reconstruído pela pureza milagrosa do seu coração. E no molde da tua essência o coração está seguro e sustento, pois que a leveza das tuas mãos, teu sorriso não o recriei, havia apenas esquecido a coreografia do nascer de um sorriso, que num ritmo descompassado o levei a dançar. Que a pureza permaneça em nós e em nosso coração alado.

Texto: Fernanda Curcio e Leonardo Macedo.
Arte: Henry Matisse, Coração.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012



 - Minhas asas cantam para você neste momento, num ritmo tão denso e longo, que sua cor púrpura se desbota na forma transparente da água. Tenho asas que só você enxerga! Meu bem. Asas que você pintou em meio ao noturno, pois, teve a coragem de buscar meu beijo num abismo onde não existem nem asas nem sóis. Quero-te muito, e voando levo o meu beijo com o gosto dos campos por onde pousei. - Sussurrou a borboleta arfante, deixando nos lábios entreabertos do artista de pinceis mágicos, o sopro do amor que existia antes de existir, antes mesmo do mundo e do vento, condutor das asas da borboleta, que como um marinheiro habitante das águas profundas, afunda desmemoriado, nos braços do barco à vela, que vela pelo sono do seu amor.

 - Meu bem, as asas que vejo estavam disfarçadas em forma de sorrisos.  Eu sei que 'a luz aflora onde nenhum sol brilha' e por isso habito os lugares mais recônditos.  Beijo-te com querer e dos campos por onde pousaste sinto-os carregados de ternura. - Disse o príncipe das cores, criador de vidas imaginadas pelo seu olhar sonhador, deus bondoso que apagou da tela barroca o cárcere enferrujado da menina feia que nem ao menos sabia andar. Em vez de ensinar-lhe a andar, deu-lhe sonhos vivos, que as grades do casulo ranzinza nunca irão poder roubar.

Texto: Fernanda Curcio e Leonardo Macedo.
Arte: Georges Braque. Dois pássaros no azul.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fiz da tua entrega 
o meu templo, e nele 
habito dia a noite.

Não há vestes, pois, 
 que nada se esconde.
Tudo é claro, exato.

O furor da paixão rasga 
o tecido em pleno dominio
onde mora o frêmito.



Animal vivo, faminto,
Palpitação pulsante. 
descontrolado o corpo alado.

E quando enrolas em mim
Torno-me azul emaranhado
em corpo aninhado.

Poema: Leonardo Macedo
Arte: Antonio Canova. Eros e Psique.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012


Reconstruí o meu corpo desparafusado e surrupiei as asas dum cisne petrificado. 
Será que o invento ressuscitador sobreviverá sem o meu coração liquidificado? 
Deveria ter transplantado também o coração da ave ressequida, agora disputado pelas sombras rastejantes. Desejo pelo menos, numa réstia de esperança, uma nuvem acinzentada prestes a explodir, com muitas lágrimas para eu poder roubar.

Texto: Fernanda Curcio
Arte: Thayer Abbott. Angel,  1890.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012


Cansada de ser vértice enferrujada de joelhos dessossados, hipnotizo a guilhotina fatiadora, mãe das ânsias horizontais, a retumbar com a lâmina lacrada a face desencantada que se desiludiu de mim. 

Texto: Fernanda Curcio
Arte: Edward Hopper. 11 am, 1926.