- Porque o teu coração sustenta as coisas, arranquei-o e pus em mim. Estou de pé com um sorriso no rosto e um coração nas mãos. Toma o meu, que essa frágil geometria só encaixa, se nos contornos do teu ser inanimado - herói sonhado das epopeias de criança - for enraizado no poço fundo dos meus olhos, que antes não alcançava nenhum cordão esfiapado de esperança. Quando você chegou, do seu mundo de pés descalços, não houve paradigma a impedir o anjo que me buscou na gravidade invernal da alma. Você me ensinou que quando se tem asas, um arranha-céu visto do alto é apenas um pequeno átomo do universo brincando de ser grande. Sou grande em ti. És bússola em mim.
- Pego-o com as duas mãos embaladas e com cuidado levo ao peito que o concebe, molde contornado e untado na minha essência, em sua permanência. Selo a tua estadia fixa no meu ser, habitante e jardineira da minha alma, que das trepadeiras retorcidas fará nascer girassóis estrelados pelo teu azul de menina-ilha, onde me perco no inverso de mim, no verso dos teus toques orquestrados pela natureza. E eu que tanto treinei o meu sorriso para engatar um impulso mais longínquo, agora sei que estava com você, me esperando além do vidro blindado de cores ossudas. Sou anjo em ti. És sorriso em mim.
- Olho para as minhas mãos afogueadas na sua intensa labareda líquida, e como mágica, desenho na face um sorriso recriado, reconstruído pela pureza milagrosa do seu coração. E no molde da tua essência o coração está seguro e sustento, pois que a leveza das tuas mãos, teu sorriso não o recriei, havia apenas esquecido a coreografia do nascer de um sorriso, que num ritmo descompassado o levei a dançar. Que a pureza permaneça em nós e em nosso coração alado.
Texto: Fernanda Curcio e Leonardo Macedo.
Arte: Henry Matisse, Coração.




