quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012



 - Minhas asas cantam para você neste momento, num ritmo tão denso e longo, que sua cor púrpura se desbota na forma transparente da água. Tenho asas que só você enxerga! Meu bem. Asas que você pintou em meio ao noturno, pois, teve a coragem de buscar meu beijo num abismo onde não existem nem asas nem sóis. Quero-te muito, e voando levo o meu beijo com o gosto dos campos por onde pousei. - Sussurrou a borboleta arfante, deixando nos lábios entreabertos do artista de pinceis mágicos, o sopro do amor que existia antes de existir, antes mesmo do mundo e do vento, condutor das asas da borboleta, que como um marinheiro habitante das águas profundas, afunda desmemoriado, nos braços do barco à vela, que vela pelo sono do seu amor.

 - Meu bem, as asas que vejo estavam disfarçadas em forma de sorrisos.  Eu sei que 'a luz aflora onde nenhum sol brilha' e por isso habito os lugares mais recônditos.  Beijo-te com querer e dos campos por onde pousaste sinto-os carregados de ternura. - Disse o príncipe das cores, criador de vidas imaginadas pelo seu olhar sonhador, deus bondoso que apagou da tela barroca o cárcere enferrujado da menina feia que nem ao menos sabia andar. Em vez de ensinar-lhe a andar, deu-lhe sonhos vivos, que as grades do casulo ranzinza nunca irão poder roubar.

Texto: Fernanda Curcio e Leonardo Macedo.
Arte: Georges Braque. Dois pássaros no azul.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fiz da tua entrega 
o meu templo, e nele 
habito dia a noite.

Não há vestes, pois, 
 que nada se esconde.
Tudo é claro, exato.

O furor da paixão rasga 
o tecido em pleno dominio
onde mora o frêmito.



Animal vivo, faminto,
Palpitação pulsante. 
descontrolado o corpo alado.

E quando enrolas em mim
Torno-me azul emaranhado
em corpo aninhado.

Poema: Leonardo Macedo
Arte: Antonio Canova. Eros e Psique.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012


Reconstruí o meu corpo desparafusado e surrupiei as asas dum cisne petrificado. 
Será que o invento ressuscitador sobreviverá sem o meu coração liquidificado? 
Deveria ter transplantado também o coração da ave ressequida, agora disputado pelas sombras rastejantes. Desejo pelo menos, numa réstia de esperança, uma nuvem acinzentada prestes a explodir, com muitas lágrimas para eu poder roubar.

Texto: Fernanda Curcio
Arte: Thayer Abbott. Angel,  1890.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012


Cansada de ser vértice enferrujada de joelhos dessossados, hipnotizo a guilhotina fatiadora, mãe das ânsias horizontais, a retumbar com a lâmina lacrada a face desencantada que se desiludiu de mim. 

Texto: Fernanda Curcio
Arte: Edward Hopper. 11 am, 1926.