- Minhas asas cantam para você neste momento, num ritmo tão denso e longo, que sua cor púrpura se desbota na forma transparente da água. Tenho asas que só você enxerga! Meu bem. Asas que você pintou em meio ao noturno, pois, teve a coragem de buscar meu beijo num abismo onde não existem nem asas nem sóis. Quero-te muito, e voando levo o meu beijo com o gosto dos campos por onde pousei. - Sussurrou a borboleta arfante, deixando nos lábios entreabertos do artista de pinceis mágicos, o sopro do amor que existia antes de existir, antes mesmo do mundo e do vento, condutor das asas da borboleta, que como um marinheiro habitante das águas profundas, afunda desmemoriado, nos braços do barco à vela, que vela pelo sono do seu amor.
- Meu bem, as asas que vejo estavam disfarçadas em forma de sorrisos. Eu sei que 'a luz aflora onde nenhum sol brilha' e por isso habito os lugares mais recônditos. Beijo-te com querer e dos campos por onde pousaste sinto-os carregados de ternura. - Disse o príncipe das cores, criador de vidas imaginadas pelo seu olhar sonhador, deus bondoso que apagou da tela barroca o cárcere enferrujado da menina feia que nem ao menos sabia andar. Em vez de ensinar-lhe a andar, deu-lhe sonhos vivos, que as grades do casulo ranzinza nunca irão poder roubar.
Texto: Fernanda Curcio e Leonardo Macedo.
Arte: Georges Braque. Dois pássaros no azul.



