sexta-feira, 13 de abril de 2012

     

     O inimigo espuma pela boca, gargalhando da fragilidade delicada do Amor deslumbrado. Olho impaciente para a criança desatenta, tentando avisá-la do perigo semeado pela discórdia da minha alma queimada no incêndio florestal. A criatura regada por mim através dos lençóis encharcados está prestes a cravar os caninos fermentados, iniciando um massacre de vermelho derretido, fugaz na perspicácia do açougueiro, que sagaz, bebe até a última gota da carnificina amolecida numa única mordida. Só não se esqueça, aborto nascido, de saciar-se depois comigo, começando pelos olhos que te fecundaram, e pelo ventre infértil que você habitou, pois que sem alma e sem amor, minha matéria é apenas enfeite perambulando robotizada nas calçadas alheias, esmolando um pouco de vida, ou quem sabe, um sopro consolado de morte.

Texto: Fernanda Curcio
Arte: Max Klinger

15 comentários:

Leo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ale disse...

Que texto!

Profundo, chocante, e dolorido...

Toda morte, pra mim, é.




Confesso: arrepiei,



Bjkas

PauloSilva disse...

Oi, aqui fiquei sem palavras com estas descritas tão profundamente...
Parabéns, de verdade! Sem amor ninguém vive, é mero corpo caído.

Aleatoriamente disse...

Xará você intensamente deixou um belo poema tatuado aqui.
Amei te ler.

Beijo

Marcelo R. Rezende disse...

Isso mexeu demais comigo. Me senti aberto por faca de cozinha, exposto. Tou doído (e agradecido).

Be Lins disse...

OLá, Fernanda!

Você escreve intensamente, parece comunicar algo em especial à cada um, diferentemente. A mim, por exemplo, é poema que avisa, é beleza abstrata numa tela de palavras que tem lugar de destaque. E uma luz tênue pra iluminar o lugar.

Sou fã dessa forma de expressar.
Visceral.

Beijo
Be

Anônimo disse...

fernanda, lindo demais. poliu as palavras para descrever as emoçoes do poeta. belo. aplausos. lamarque

Anônimo disse...

Oi Fernanda,

sem amor só o vazio.

Beijos

ASAS disse...

LIndo blog, lindo tudo aqui, parabéns.

Ana Martins disse...

Fernanda, boa tarde!
"Sem alma e sem amor", o nosso corpo não passa mesmo de matéria deambulando, à procura ou à espera de um "sopro consolado de morte".

Muito intenso!

Beijinho,
Ana Martins

Natália Rocha disse...

Fernanda, como tu escreve! Tão intenso e doloroso que chega ser desconcertante.

Belíssimo!

beeijos!

Ps: Me encanto com suas visitas, obrigada!

rejane disse...

fascinante texto!
abraços!

Evandro L. Mezadri disse...

Belíssimo texto!
Forte, delirante, poético, muito bem escrito.
Roberto Piva foi recordado por mim ao te ler!
Grande abraço e sucesso!

Tati Lemos disse...

Oi Fernanda,

querida transformando até a morte em poema né? Lindo, bem profundo, mas lindas, e sabias as tuas palavras.

Beijo

Ayanne Sobral disse...

Esse texto me lembrou um momento meu. Coisa estranha que vivi esse ano, e acabou por resultar num texto cheio de metáforas. Porque, às vezes, a gente nem sabe bem o que o lado de dentro tá dizendo.

Eu, que significo a morte como quem significa a vida, me encontrei, aqui.
E volto, sempre.

Palavras lindas e encantadoras, moça.
Beijos.