quinta-feira, 1 de novembro de 2012



     Ao longe, o crepúsculo bordeja, puxado por Deus para que o mundo não intercepte, atrofiado pela maldição degradê do dia. Inicia intenso, ladino; depois infecta-se no rodapé de suas quadrúpedes crias. Bebê imaculado sugando águas pútridas, disfarçando o antro de toda a sanha; arte de engendrar a hipocrisia. 
     Ah! Inocente sol, pobre dia... quase adoecem para salvar a continuidade pernóstica- digna de pena- do espaço fornicado, recebendo como agradecimento, o relinchar da humanidade vazia. Logo, o dia precisa descansar, alimentar-se da ambrosia purificadora, e sobretudo, benzer-se da força de Ares para que a crosta metálica entorpeça ao ouvir o mantra esbraseado de seu nascente nirvânico. 
     Mas como serenar sóbrio sabendo que os Sátiros devastariam com o enxofre de seus chifres, o que Deus semeou na fornalha do coração? Conseguiria escutar o riso do deus Pan, satisfeito por ter extraviado os filhos do inimigo. Já prevendo tal iminência, o bom criador ergue no nascimento da noite, a sobrevivência do doce dia. Do contrário, os dias explodiriam, tamanha corpulência sulfúrica expirada por narinas apocalípticas. 
     A magia da noite é imitada pelo homem, já que seus olhos são dois cacos de vidro. Laminados, eles podem simular a candura através do silêncio. De suas ruminantes vozes frias.
     O dia protegido pelo escudo prateado vigia o sono dos mortais de soslaio, admirando a quietude tão pura de seus rostos cálidos. Nem parecem monstros que rivalizam com a própria espécie, a fim de não mostrarem egos arranhados. 
    Quando eles dormem, Deus até pensa que são altruístas genuínos, em lugar de Sátiros- homem de dois gumes- com espíritos invadidos. Realmente, neste momento não são, pois o noturno rasga o véu das palavras, adentrando à essência do divino. Errante pelo bosque, Pan experimenta o mesmo veneno cravado no pânico de suas presas fáceis, sem a companhia dos súditos, não mais hipnotizados pela grandeza dos descaminhos. 
    Por agora eles são anjos. Pela manhã fecham asas, nascem chifres. Surgem as mênades, a engatilhar a secreção de seus rifles. 
     O que a noite nos reserva? O milagre da luz emergindo na alma de um candeeiro sombrio.



Fernanda Curcio, In: O que a noite nos reserva?
René Magritte: O retorno da chama.



Contribuição para a Corrente Literária



11 comentários:

Fernanda disse...

No texto acima emenda-se o dia e a noite, sendo a última, substância que eleva o ser humano através da solidão tranquilizante que a multidão barulhenta do dia assola em meio às armadilhas preparadas na claridade, passando despercebidas. Para demonstrar tal pensamento, são usadas como metáforas, deuses e criaturas da mitologia grega, como a breve citação de Ares, o qual é divindade da guerra, simbolizando a força que o dia deveria ter para não morrer, e assim, salvar a vida terrena. O deus Pan é a existência do Mal adentrada na essência humana, a lutar com o Deus judaico-cristão, a fim de domar completamente a alma do homem, que por si só já é maledicente. Aparência animalesca de bode, com chifres e patas, o deus dos bosques ou do pânico tem seus seguidores, que são os Sátiros, criaturas com as mesmas características físicas as quais cultuavam através da copulação com as mênades, o deus Pan e também Dionísio, deus do vinho, não citado no texto. Por gostar muito de mitologia, uso em alguns escritos tal literariedade a fim de expressar ideias e sentimentos variados. Concluindo, a noite salva não só o dia das maldades da humanidade, mas também o homem de si mesmo, mostrando que lá no fundo, no silêncio da madrugada, há um pulsar respirante de bondade.

Evandro L. Mezadri disse...

Seus textos são fenomenais. Poéticos, psicodélicos, nos forçando a refletir sempre e sempre.
Imagino essa bela obra sendo lida pela voz de Antonio Abujamra!
Grande abraço e sucesso!

PauloSilva disse...

Hoje um tudo, amanhã um nada.
Veremos que mais o sol possa queimar e a lua iluminar. Esperemos pelo assobio do pardal e talvez a noite não volte a cair sobre os sorrisos apagados.
Excelente texto, fantástica a escolha de palavras.

Tati Lemos disse...

Nossa, que coisa incrivel isso que escreveu hein, coisa para refletir.

Beijo querida.

O por ti, pra ti tá de cara nova, visita lá, espero que goste.

Be Lins disse...

Oi, Fernanda!

Seus textos são espetaculares. São muito intensos, é aquele tipo de leitura que ganha toda a atenção, porque sem a atenção que merece, não se entrega. É admirável.

Agradeço sua visita. Sobre as imagens que uso, é um hábito que adoro, fico horas olhando a poesia contida numa imagem. Abtraio-me nelas.

Deixo um beijo pra você, e um outro beijo grande para o mago das horas, Leo.

Be

Marcelo R. Rezende disse...

Que lindo, que lindo!
Acho que já te disse, não entendo muito dessas simbologias. Aliás, entendo nada, mas com você, o texto ganha tamanha emoção, que são só detalhes.

Parabéns, LINDO texto.
Obrigadíssimo por participar da Corrente

(e me perdoe a demora em comentá-la)

Leo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Texto poético e belíssimo.

Eu sou mais pessimista e já nessas alturas, os deuses, fingem não nos ver...

Beijos e boa semana.

Cher disse...

Eu achei tão bem emendada o texto com a imagem. Parabéns.

Tati Lemos disse...

OI fê, aguardando um post novo querida.

Beijo, grande abraço, lindo final de semama.

Ana Luiza Cabral disse...

É tão bom ler algo estando em um blog que a leitura é aconchegante.

Gostei muito.