Ao longe, o crepúsculo bordeja, puxado por Deus para que o mundo não intercepte, atrofiado pela maldição degradê do dia. Inicia intenso, ladino; depois infecta-se no rodapé de suas quadrúpedes crias. Bebê imaculado sugando águas pútridas, disfarçando o antro de toda a sanha; arte de engendrar a hipocrisia.
Ah! Inocente sol, pobre dia... quase adoecem para salvar a continuidade pernóstica- digna de pena- do espaço fornicado, recebendo como agradecimento, o relinchar da humanidade vazia. Logo, o dia precisa descansar, alimentar-se da ambrosia purificadora, e sobretudo, benzer-se da força de Ares para que a crosta metálica entorpeça ao ouvir o mantra esbraseado de seu nascente nirvânico.
Mas como serenar sóbrio sabendo que os Sátiros devastariam com o enxofre de seus chifres, o que Deus semeou na fornalha do coração? Conseguiria escutar o riso do deus Pan, satisfeito por ter extraviado os filhos do inimigo. Já prevendo tal iminência, o bom criador ergue no nascimento da noite, a sobrevivência do doce dia. Do contrário, os dias explodiriam, tamanha corpulência sulfúrica expirada por narinas apocalípticas.
A magia da noite é imitada pelo homem, já que seus olhos são dois cacos de vidro. Laminados, eles podem simular a candura através do silêncio. De suas ruminantes vozes frias.
O dia protegido pelo escudo prateado vigia o sono dos mortais de soslaio, admirando a quietude tão pura de seus rostos cálidos. Nem parecem monstros que rivalizam com a própria espécie, a fim de não mostrarem egos arranhados.
Quando eles dormem, Deus até pensa que são altruístas genuínos, em lugar de Sátiros- homem de dois gumes- com espíritos invadidos. Realmente, neste momento não são, pois o noturno rasga o véu das palavras, adentrando à essência do divino. Errante pelo bosque, Pan experimenta o mesmo veneno cravado no pânico de suas presas fáceis, sem a companhia dos súditos, não mais hipnotizados pela grandeza dos descaminhos.
Por agora eles são anjos. Pela manhã fecham asas, nascem chifres. Surgem as mênades, a engatilhar a secreção de seus rifles.
O que a noite nos reserva? O milagre da luz emergindo na alma de um candeeiro sombrio.
Fernanda Curcio, In: O que a noite nos reserva?
René Magritte: O retorno da chama.
Contribuição para a Corrente Literária
René Magritte: O retorno da chama.
Contribuição para a Corrente Literária
11 comentários:
No texto acima emenda-se o dia e a noite, sendo a última, substância que eleva o ser humano através da solidão tranquilizante que a multidão barulhenta do dia assola em meio às armadilhas preparadas na claridade, passando despercebidas. Para demonstrar tal pensamento, são usadas como metáforas, deuses e criaturas da mitologia grega, como a breve citação de Ares, o qual é divindade da guerra, simbolizando a força que o dia deveria ter para não morrer, e assim, salvar a vida terrena. O deus Pan é a existência do Mal adentrada na essência humana, a lutar com o Deus judaico-cristão, a fim de domar completamente a alma do homem, que por si só já é maledicente. Aparência animalesca de bode, com chifres e patas, o deus dos bosques ou do pânico tem seus seguidores, que são os Sátiros, criaturas com as mesmas características físicas as quais cultuavam através da copulação com as mênades, o deus Pan e também Dionísio, deus do vinho, não citado no texto. Por gostar muito de mitologia, uso em alguns escritos tal literariedade a fim de expressar ideias e sentimentos variados. Concluindo, a noite salva não só o dia das maldades da humanidade, mas também o homem de si mesmo, mostrando que lá no fundo, no silêncio da madrugada, há um pulsar respirante de bondade.
Seus textos são fenomenais. Poéticos, psicodélicos, nos forçando a refletir sempre e sempre.
Imagino essa bela obra sendo lida pela voz de Antonio Abujamra!
Grande abraço e sucesso!
Hoje um tudo, amanhã um nada.
Veremos que mais o sol possa queimar e a lua iluminar. Esperemos pelo assobio do pardal e talvez a noite não volte a cair sobre os sorrisos apagados.
Excelente texto, fantástica a escolha de palavras.
Nossa, que coisa incrivel isso que escreveu hein, coisa para refletir.
Beijo querida.
O por ti, pra ti tá de cara nova, visita lá, espero que goste.
Oi, Fernanda!
Seus textos são espetaculares. São muito intensos, é aquele tipo de leitura que ganha toda a atenção, porque sem a atenção que merece, não se entrega. É admirável.
Agradeço sua visita. Sobre as imagens que uso, é um hábito que adoro, fico horas olhando a poesia contida numa imagem. Abtraio-me nelas.
Deixo um beijo pra você, e um outro beijo grande para o mago das horas, Leo.
Be
Que lindo, que lindo!
Acho que já te disse, não entendo muito dessas simbologias. Aliás, entendo nada, mas com você, o texto ganha tamanha emoção, que são só detalhes.
Parabéns, LINDO texto.
Obrigadíssimo por participar da Corrente
(e me perdoe a demora em comentá-la)
Texto poético e belíssimo.
Eu sou mais pessimista e já nessas alturas, os deuses, fingem não nos ver...
Beijos e boa semana.
Eu achei tão bem emendada o texto com a imagem. Parabéns.
OI fê, aguardando um post novo querida.
Beijo, grande abraço, lindo final de semama.
É tão bom ler algo estando em um blog que a leitura é aconchegante.
Gostei muito.
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